

João Monteiro Neto A Caatinga e o Aboio Nordestino
JOÃO MONTEIRO NETO
Advogado Pesquisador Escritor

Antonio Ernesto e João Monteiro Neto, em Exu-Pernambuco (2006)
Foi Ernesto quem me “ensinou” como saber, antecipadamente, se o inverno do ano que entra será promissor, ou não.
APESAR DE TUDO, CHOVE NO ARARIPE
As atrasadas e poucas chuvas que molham o chão do Sertão do Araripe, nessa primeira parte de fevereiro, renovam a esperança do sertanejo. Arrisco-me pensar que talvez seja um razoável começo de inverno, embora provavelmente com atraso. Provavelmente por inocência, ou um misto de de costume e necessidade, o sertanejo - que conhece a seca de perto e as Leis Divinas -, sempre tenta “adivinhar” seus desígnios...!
O regime das chuvas no semi-árido tem inicio mais ou menos em Dezembro (com algumas precipitações), se prolongando até março ou mais tardar abril, quando se tornam mais regulares e fortes. Era nessa época (dezembro) que nossos avós antigamente plantavam o “feijão verdadeiro” (mais “nutritivo” e “forte”). Hoje, devido ás irregularidades climáticas (Secas), devido ao aquecimento global , o que se planta mais frequentemente é o “feijão ligeiro” , de qualidade “inferior” que o primeiro, mas que nasce mais rápido, expondo menos o agricultoraos prejuízos de uma provável falta de chuvas. Nunca se respeitou tanto o clima como agora, no sertão. O que já era difícil de se comedir, hoje é impossível de se prever e comensurar. Maio é mês onde as cobras “andam”, procurando a já amena temperatura, para se expor, após a passageira estação “fria” e “molhada” das águas.
APESAR DE TUDO, CHOVE NO ARARIPE
Não chove com regularidade nos Sertões do Araripe e Central, a um bom tempo. Daí a alegria e esperança dessa gente com essas minguadas gôtas d’água
Só quem convive com ele ou é sertanejo, sabe do que estou falando. Que o diga o jornalista Magno Martins, que em artigo recentemente publicado neste jornal, descreveu com perfeição e precisão, os costumes etradições da cultura desse povo, no Pajeú, durante as festividades natalinas do ano passado. Aqui minha reverência ao que você escreveu, Magno. Parabéns. É verdade.
Viajo muito pelo Sertão, onde resido (vida de cigano a minha, com parada obrigatória em Salgueiro, Exú, Serrita, Moreilândia e Granito - área por nós designada de “O Quadrilátero do Vaqueiro”), onde a cultura da “Civilização do Couro” é mais forte. Advogo em defesa dos direitos e resgate da cultura desses sertanejos, em especial os dos “Vaqueiros e Artesãos do Couro”.
Na fazenda Algodões, em Exu, Luiz Gonzaga se reunia com João Câncio para falar também de versos e, entre eles, versos molhados com cheiro de “água de chuva misturada com terra”. De lá dá pra se enxergar a pouca distância a Chapada do Araripe (Cariri), que deixa escorrer sobre suas encostas as águas pluviais nesse período, majestosamente.
Água é coisa séria e no Sertão mais ainda. Tem sabor especial. Tem sabor de poesia, de lida, desobrevivência.. Quem não já ouviu a canção de “Lua” : “- Mandacaru quando flora lá na sêca....é o sinal que a chuva vem para o sertão...” ?
Hoje, me reuno com alguns amigos que presenciaram essas prosas entre esses dois ilustres personagens.Antônio Parente é um deles. Antônio Ernesto (exímio Vaqueiro) é outro, e era da “tropa de choque” de Câncio. Um sábio. Conhece como ninguém os sinais de chuva da natureza.
Foi Ernesto quem me “ensinou” como saber, antecipadamente, se o inverno do ano que entra será promissor, ou não. É costume, toda “virada de ano”, o sertanejo do Araripe madrugar para ver o amanhecer naChapada : “- Se aparecer um halo (barra, auréola, coroa de luz) encima da serra, pela manhã do dia 1º, é sinal de bom inverno que chega”.
Esse ano, de 2007, fiz o que ele me indicara. Madruguei na varanda de Algodões, olhei para a chapadaansiosamente. Vi o dia amanhecer e enxerguei a barra de luz. Coincidência, ou não, começa a chover no sertão.Sabemos que falta uma política pública adequada direcionada para minimizar a falta d’água no semi-árido e que o assistencialismo é o câncer maior dessa realidade. Mas, não custa sonhar, caro Magno ...o Sertão também é enigmático e tem dessas coisas....
João Monteiro Neto é advogado das Fundações “Padre João Câncio” e “João Monteiro Filho”

Onde tiver sertanejo, vaqueiro e a "Civilização do Couro" manifestar qualquer de seus braços culturais, pode está certo: estarei por perto ou, na mais infausta das hipóteses, "Caetana" me levou. Segundo o mestre........
Opinião Diário de Pernambuco 03 de março de 2009
A "NAU" Singra a Caatinga
Meu trabalho junto ao Iphan, para o Registro do "Vaqueiro e sua diversidade cultural" como patrimônio cultural imaterial brasileiro, me toma prazeroso tempo. Tenho de percorrer nove estados nordestinos e alguns do sudeste e centro-oeste, intimamente interligados com o "Ciclo do Gado e do Couro" em nosso país -, colecionando dados para se inventariar essa fabulosa etnia cultural brasileira. Após o carnaval, nada melhor que essa breve leitura, para refletirmos melhor sobre a importância desse projeto para Pernambuco e o Brasil, com sua vitrine à mostra para o mundo, expondo o que realmente ela significa no campo da educação e conhecimento, além de seu apontamento histórico. Encontro-me em Salgueiro, Sertão Central de Pernambuco, a espera da apresentação da "Aula Espetáculo "NAU", de Ariano Suassuna, com os integrantes do "Grupo Arraial".
Onde tiver sertanejo, vaqueiro e a "Civilização do Couro" manifestar qualquer de seus braços culturais, pode está certo: estarei por perto ou, na mais infausta das hipóteses, "Caetana" me levou. Segundo o mestre Ariano, Caetana é o nome da morte, conhecida lá pelas "bandas" de onde ele nasceu. É ela que nos dá as mãos quando chegada a hora da partida. O objetivo da "Aula Espetáculo Nau" é de se navegar pelas origens da cultura e do povo brasileiro, levando esse conhecimento à população. As músicas trazidas à programação do espetáculo (em número de onze), foram todas elas compostas por Antônio Madureira. A equipe de músicos, traz nomes do porte de Eltony Nacimento (flauta), Sérgio Ferraz (violino), Sebastian Poch (violoncelo) e Jerimun de Olinda (percussão). A de Cantores Ednaldo Cosmos de Santana, Issar França. Cantador e violeiro, Oliveira de Panelas. E, dos bailarinos, Maria Paula Costa Rêgo, Gilson Santana, Pedro Salustiano, Jáflis Nascimento e Ana Paula Santana.
Um time de primeira!
A apresentação começa com uma incursão pela primeira civilização cultural brasileira, a indígena (com o "Toré"), para depois homenagear as raízes ibéricas formadoras de nossa cultura, principalmente a portuguesa (com a "Nau" - que dá nome a aula espetáculo) e, a terceira (com "Estrela Brilhante"), que é um tributo a vertente africana de nossa civilização e que muito contribuiu com a colonização do nosso país, destacando sua alegria (danças, músicas e colorido).
Antes de cada apresentação, Ariano expunha oralmente cada ato fazendo correlação com "causos" de seu conhecimento, discorrendo sobre seu significado e sua importância histórica para o Brasil. Eis trechos de suas palavras que comoveram a platéia e a mim, levando todos ao delírio: "- A alegria do povo africano é tão grande que os negros brasileiros até quando andam parecem que estão dançando".
Um dos cânticos oferecidos, a "Excelência", é executado no momento da agonia da morte. Significa dizer que a pessoa tenha a morte em Paz com Deus.
No cantar "Romaria", vê-se a "Ave Maria Dos índios, Cantada em Latim", ("versão cinematográfica do "Auto da Compadecida"). Nesse cântico, "Deus é o pai que mora na tenda da chuva".
Temos de incentivar sua continuidade, inclusive lá fora. Ainda mais agora, quando Pernambuco é o vagão que puxa os demais estados nordestinos nesse projeto de registro junto ao Iphan do "Homem encourado dos Sertões", na qualidade de bem patrimonial imaterial brasileiro.
Opinião Diário de Pernambuco 03 de março de 2009
João Monteiro Neto