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A fé que o vaqueiro leva consigo, a força e a perseverança da sua luta diária na terra seca, sem temer os espinhos a sangrar lhe a face a cada nascer do Sol....

 

 
 
Os milagres

 

 

Eram seis talhas cheias d’água. Era dia de festa, um casamento. O vinho foi pouco para tantos convidados, e faltou. Um acontecimento novo, que mudaria o mundo, estava prestes a acontecer: Jesus transformaria água em vinho, realizando seu primeiro Milagre. Maria implora ao filho de Deus a realização da inexplicável maravilha, e ele ainda não se achava preparado para fazê-la. Mas, diante do pedido da mãe e da necessidade dos presentes, foi generoso e fez da água o melhor dos vinhos.

Antes. Muito antes desse acontecimento, Moiséis, obedecendo determinação divina dividiu o Mar Vermelho, conduzindo seu povo à Terra Prometida.

Os faraós, reis e imperadores do mundo civilizado de então dividiam as águas de suas metrópoles e colônias, levando desenvolvimento e diminuindo o sofrimento de seu povo e conquistados. No Nilo e na Mesopotâmia também assim o foi e aconteceu. Foi desenvolvido nessas civilizações – com o fim de fornecimento e abastecimento d’água à população, como para a irrigação de suas lavouras –, um complexo aparelhamento de diques e canais, constante de um sistema hidráulico para dessecar os pântanos e armazenar a água durante as estações secas e impedir a destruição de lavouras pelas inundações periódicas.

Segundo nos relata a história, certo governante dissera, na época: “Graças à irrigação cresceu a colheita e a água não nos vai faltar!!”

Bem. São acerca dessas questões – divisão e distribuição de água – que polêmicas vêm sendo criadas, em relação à transposição das águas do Velho Chico. Aliás, transposição é termo um pouco forte ... exagerado ... que se usa indevidamente para se querer definir os canais que levarão vida a milhões de nordestinos.

Os fervorosos críticos da transposição defendem a existência de vários erros ou equívocos do projeto. Mas, contraditoriamente, não apresentam a solução. E, quando alguns se atrevem a oferecê-la, cometem lamentável engano: repetem o que já foi feito e dito exaustivamente na elaboração do plano, reproduzindo a mesma idéia e concepção de projeto, apenas alterando a ordem das coisas, com leves mudanças secundárias, suprimindo ou trocando só a titularidade do pai da criança.

Mas o entendimento é uniforme e único: sim, deve-se promover a transposição do rio da integração nacional.

Não podemos deixar que a indústria da seca continue e nos vença de novo. Os escusos interesses devem ser estancados, agora.

E, a transposição deve seguir. Ter continuidade. Serenamente. Sem maiores alardes. Não existe motivo para tal. Tudo está sendo feito com muito debate e estudo, responsavelmente.

Existem homens e idéias respeitáveis de ambos os lados, frise-se. No entanto, nossa elite não deseja que a água do Velho Chico se transforme no excelente vinho de Caná, a fonte da água da vida.

 

João Monteiro Neto  11/11/2005

Advogado da Fundação Padre João Câncio, em Salgueiro (PE) e Presidente da Fundação João Monteiro Filho.

 

 

Jornal do Commercio - Pernambuco
 

Janduhy Finizola, autor da Odes "Terra do sol", cantada na missa sertaneja em Serrita-PE, em memoria da morte do Vaqueiro Raimundo Jacó,

REZAS DE SOL


É manhã de verão. O compromisso foi agendado para se realizar num pequeno hotel da periferia de Caruaru, cidade onde Janduhy Finizola reside e diariamente passa em direção a zona rural, a caminho de um de seus ofícios, o de médico. O dia está claro, embora abafado. Chovera na noite anterior.

O médico e compositor já se encontrava no local combinado, no hall de entrada, sentado numa poltrona, pacientemente fitando o tempo. Chegávamos apressados do sertão ao seu encontro.

Avistamos um homem simples e de gestos leves. Seus cabelos de algodão, fala mansa e educada e o olhar penetrante, denunciavam a presença de muita sabedoria, adquirida com o acúmulo na vida de muita renúncia e sofrimento. Tudo nele me marcou, a partir daí. 

Não me enganara. Estava diante de um ser humano extraordinário como tantos me alertaram; a quem eu deveria me sorver pouco a pouco em seus conhecimentos e, em silêncio.

Falo do meu primeiro encontro com o autor das Odes Rezas de Sol, obra de estilo único no mundo, executadas durante a celebração da Missa do Vaqueiro, em Serrita, Pernambuco.

Toda cultura universal tem seu Ulisses e a Odisséia, do grego Homero. A nós, por inspiração divina, nos coube as Rezas de Sol de Finizola, narrando a aventura do personagem sertanejo. 

São nove composições poéticas, a peça, podendo se retirar a exemplo, um trecho dentre elas, de Credo: "Creio na esperança, nas minhas lembranças, vaqueiro e criança, o tempo a passar. Creio na paisagem de pobre pastagem que ensina coragem e como esperar. Creio na partida amanhecida, nos campos a vida, a terra a clamar. Creio nas enchentes nos rios valentes, que faz do presente sertão se alegrar ... Aqui vou ficar, vou rezar. Ai, vou amar a minha geração".

No Ofertório, a peça traz seu principal personagem (o vaqueiro) enumerando seus utensílios de trabalho, de uso diário.

A obra completa é uma pintura de nossa cultura popular. O cenário rico e de tantas lutas é a caatinga - orgulho de todo nordestino, por se constituir no único bioma do gênero no mundo e berço de nossa história.

Para Janduhy, "a vida do vaqueiro é simples, abrangente e profunda". Essas composições foram por ele criadas no ano de 1976, e é um misto de beleza e arte que sintetiza a luta e as dificuldades do homem sertanejo.

Saí da entrevista com este homem mais esperançoso e revigorado de que quando entrei, registrando prá o resto de minha vida o exemplo de uma lucidez no auge de seus 80 anos, que ainda corre os sertões prenunciando a eternidade da pureza do semi-árido, distribuindo poesia e curando enfermos.

Rezas de Sol é obra antológica da cultura popular brasileira. Não deve ser esquecida. Principalmente agora, quando requeremos junto ao Iphan o registro dos "Encourados dos Sertões" e sua diversidade cultural e o meio onde vive (caatinga), como Bem Cultural Imaterial Brasileiro e Patrimônio Natural. 

 

 

                                                             

                                                                       João Monteiro Neto

Advogado da Fundação Padre João Câncio, em Salgueiro (PE) e Presidente da Fundação João Monteiro Filho.

 

Publicado no Diario de Pernambuco - 10.09.2009

 

Luiz Gonzaga , um dos fundadores da Missa do Vaqueiro em Serrita-PE

 

 

A “NAU” SINGRA A CAATINGA

 

É primeiro de dezembro. Iniciamos esse mês as festividades natalinas. Época de PAZ e PERDÃO.

O local é a cidade do Salgueiro, Sertão Central do nosso querido Pernambuco, onde também resido. Tenho um pouco de vida cigana no sangue. Exú (terra do “Rei do Baião” e do “Pernambucano do Século XX”), como Moreilândia, Granito e Serrita, são minhas tendas, e se encontram no meu roteiro domiciliar.

Encontro-me, reunido com a família, a esperar o início de um dos mais belos espetáculos artísticos e popular do qual já presenciei na vida : a apresentação da “Aula Espetáculo “NAU”, de Ariano Suassuna, com os integrantes do “Grupo Arraial”.

A platéia já esgota o espaço físico: gente de todos os níveis sociais presentes. Profissionais liberais. Funcionários Públicos. Artistas Populares Locais. Artesãos. Vaqueiros e Artesãos do Couro. Comerciantes. Professores da rede Particular e Oficial de Ensino. Alunos. Agricultores.  Representantes de Entidades de Classe ... etc....

Onde tiver sertanejo, vaqueiro e a “Civilização do Couro” manifestar qualquer de seus braços culturais, pode está certo : estarei por perto ou, na mais infausta das hipóteses, “Caetana” me levou, antes de assistir ao espetáculo.

Segundo o mestre Ariano, Caetana é o nome da Morte, conhecida lá pelas bandas onde ele nasceu. É ela que nos dá as mãos quando chegada a hora da partida, ou quem nos leva para a “outra vida”.....

O objetivo da “Aula Espetáculo Nau” é de se navegar pelas origens da cultura e do povo brasileiro, levando esse conhecimento á população. Uma feliz iniciativa.

As músicas trazidas á programação do espetáculo (em número de onze), foram todas elas compostas porAntônio Madureira.  A equipe de músicos,  traz nomes do porte de Eltony Nacimento (flauta), Sérgio Ferraz (violino), Sebastian Poch (violoncelo) e Jerimun de Olinda (percussão). A de Cantores Ednaldo Cosmos de Santana, Issar França. Cantador e violeiro, Oliveira de Panelas. E, dos bailarinos, Maria Paula Costa Rêgo, Gilson Santana, Pedro Salustiano, Jáflis Nascimento e Ana Paula Santana. Todos trabalham com Ariano e são do círculo da “arte popular”. Um time de primeiro mundo, diga-se de passagem....!!!

Aliás, para o mestre, “quem não entende de Canudos não entende de Brasil. Canudos é o símbolo da resistência”. “A música de Villa Lobos é fundamental para o desenho do Mapa do Brasil, como nação” e, diferencia o artesanato da arte :  “Quando a utilidade de algo predomina sobre sua beleza, isso é artesanato. E, quando a beleza de algo predomina sobre sua utilidade, isso é arte”.

A apresentação começa com uma incursão pela primeira civilização cultural brasileira, a indígena (com o “Toré”), para depois homenagear as raízes ibéricas

formadoras de nossa cultura, principalmente

a portuguesa (com a “Nau” – que dá nome a aula espetáculo) e, a terceira (com “Estrela Brilhante”), que é um tributo a vertente africana de nossa civilização e que muito contribuiu com a colonização do nosso país, destacando sua alegria (danças, músicas e colorido).Todos nós sabemos que Ariano é um excelente contador de “causos”.

Antes de cada apresentação, Ariano expunha oralmente cada ato fazendo correlação com “causos” de seu conhecimento, discorrendo sobre seu significado e sua importância histórica para o Brasil. Uma verdadeira aula. Eis trechos de suas palavras, que comoveram a platéia e a mim, levando todos ao delírio e a acreditar neste projeto :  “- A alegria do povo africano é tão grande que os negros brasileiros até quando andam parecem que estão dançando”.

Um dos cânticos  oferecidos, a “Excelência” é executado no momento da agonia da morte. Significa dizer que a pessoa tenha a morte em Paz com Deus. 

No cantar,  “Romaria”, a “Ave Maria Dos índios, Cantada em Latim”, interpretada por Ednaldo Cosmo de Santana, é de arrepiar e de se encher de orgulho :  a “versão cinematográfica do “Auto da Compadecida”, e foi feita para a entrada deNossa Senhora. Nesse cântico, “Deus é o pai que mora na tenda da chuva”.

Bem, não podemos, num pequeno espaço dizer e abranger sobre tudo do fabuloso mundo do espetáculo. E nem seria justo com a equipe, esgotá-lo em palavras (como se isso fosse possível aqui!). Temos é de assistí-lo e incentivar suas apresentações mundo afora. Mas, sem dúvida, podemos dizer : esse é o caminho. É por aí que o Brasil tem de caminhar. Parabéns Ariano! Parabéns pelos seus 80 anos de lucidez e contribuição para um país mais justo.

 

João Monteiro Neto e advogado das Fundações “João Monteiro Filho” e “Padre João Câncio”. 

 

Publicado no Diário de Pernambuco

E assim D. Odília ingressou no Céu : “- com os dois pés !!”, como sempre encarou e enfrentou a vida. 

                                 “MORTE E VIDA ODILIA"

 

 

Desatino de nossos políticos e governantes.

 

O sertão é o do “Alto Araripe”.

 

A cidade,  EXÚ/PE.  A localidade, “Sítio Mandacarú”, vizinho ao “Sítio Chapada”, onde há muitos anos atrás viviam Raimundo Jacó e D. Odília, no início de suas vidas de recém casados.

Todos esses sítios são circunvizinhos ás cidades

de Bodocó/PE, Granito/PE, Serrita/PE, Exu/PE e Moreilândia/PE.

 

Por nós essa região é denominada de  o “Quadrilátero do Vaqueiro”, devido a sua forte “cultura popular” -, com maior destaque para o “artesanato”, a “poesia”, a  “música” e  a “dança”  (entre elas o “forró”). E, a “cultura do couro”, a mais forte no nordeste, por juntar força com a região  fronteiriça do “cariri cearense” (Juazeiro do Norte – de “Padim Ciço”-, Crato, Barbalha ...etc.), cantada em versos e prosas por Luiz Gonzaga, amigo íntimo de D. Odília e João Câncio, fundadores e idealizadores da “Missa do Vaqueiro”, que se realiza em Serrita/PE.

 

Após a morte de Jacó, assassinado em 08 de julho de 1954,  no sítio lajes, local onde se celebra a Missa em sua homenagem, D. Odília foi residir no Distrito de Rancharia, no município de Granito/PE. O que separa “Rancharia” do ”Sítio Mandacarú” é um pequeno rio seco, que abriga a exclusão e a miséria, comum no explorado “semi-árido nordestino”.

 

Viveu ela ali sob violenta privação de alimentação e moradia, com a ajuda de alguns amigos que aquinhoavam o auxílio nesse sentido, pois resignada e feliz, nada ela pedia.

Com Jacó, D. Odília teve 01 (um) filho, chamado Vicente.

 

No “Sítio Chapada”, parte de sua vida, D. Odília esperava até semanas pela volta de Jacó – maior vaqueiro do nordeste, que vivia “perdido”, dentro da “caatinga”, atrás de “boi fujão”, para ganhar alguns trocados para levar ao sustento de sua família. Luiz Gonzaga sempre dissera que Raimundo Jacó vivera num “desapego total á vida material”. A paciência e a fé dessa mulher é o símbolo das nossas “Severinas”, vivas ....

 

São 10:20 hs da noite de 27/01/2008. D. Odília agoniza no seu leito de morte, definha desnutrida e fraca, praticamente só ....como vivera.......esquecida, aos quase 90 anos de idade. È assim que morrem nossas “Severinas” ....

 

 Que fazer.....!!!! ???

Aqui rendo minhas homenagens a essa mulher. Exemplo de vida. E, não poderia jamais deixar de registrar o gesto do Governador Eduardo Campos, nem deixar de citá-lo nesse momento.-, único político e chefe de executivo, em todas as esferas de governo, a se solidarizar com a família de D. Odília e a história, fazendo justiça e representado por nós nas celebrações. 

 

Já são 17:40 hs. da tarde e os inúmeros amigos de D. Odília presentes á pequena Igreja de “São Francisco das Chagas”  não querem que ela se vá ....Mas é preciso....e no chão seco e sagrado do sertão, no vermelhidão do ocaso sertanejo de despedida, se ouve a pergunta que não quer calar : “- O caixão fica virado com a cabeça para a entrada ou com os pés??”. De imediato, vem a resposta lá do canto do campo-santo : “- Do jeito que sempre viveu. Do jeito que entrou !!”.

E assim D. Odília ingressou no Céu : “- com os dois pés !!”, como sempre encarou e enfrentou a vida. 

 

                                                           

 

                                                           João Monteiro Neto

                                                         Advogado/pesquisador

 

 

Publicado no Jornal do Commercio em janeiro de 2008

 

A Morte do Vaqueiro - Luiz Gonzaga
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